Meu amigo me preocupava. Enfrentava uma fase complicada na vida e não nos dava brecha para saber como estava. Apesar de brincalhão e um tanto simpático, ele não conversava sobre coisas pessoais, sua dor e sofrimento.
Tentei várias vezes e por tantos meios saber como ele estava, se precisava de alguma coisa. Porém, ele sempre podava aqueles que tentavam avançar as barreiras estabelecidas.
Já tinha perguntado sobre a ele à muitas pessoas. Todos tinham a mesma resposta que eu. Diziam que nosso amigo parecia bem, mas pouco queria conversar a respeito do ocorrido.
Foi então que resolvi perguntar para uma bichinha que conheço. É impressionante como esse viado, sabe da vida dos outros. E tinha certeza de que ele teria novidades quentinhas.
Não me enganei. Disse a bichinha que encontrava meu amigo direto, sempre. Que antes ele parecia estar mal. Com os olhos fundos, cara de cansado, mal mesmo. Porém nos últimos tempos, o rapaz parece ter melhorado.
Anda sempre em companhia de uma cabeluda (para mim todas as mulheres o são, mas a bichinha disse que essa era mais). Está mais bem vestido. Alegre e com ar mais “up”, segundo meu informante.
Dias depois encontrei meu amigo e disse de cara.
- Fiquei sabendo que você está melhor e contei a história do antes mal e da cabeluda.
Meu amigo matou na hora.
- Já sei a bichinha te disse que me viu, né. É verdade. Encontrei como eles duas vezes (não sempre como disse meu informante). Na primeira, eu tinha acabado de correr sete quilômetros, estava acabado e fui tomar um suco. Já na outra vez, eu estava indo trabalhar, com roupa de quem vai sair, e encontrei por coincidência uma amiga que não via há tempo. Conversamos muito, demos risadas e fomos para o serviço....
Bichinha exagerada
03 outubro 2007
02 outubro 2007
Meu dia de Tom Cruise
Como faço quando tenho manhãs livres, resolvi dar uma corrida hoje cedo. Antes de contar a historia, porém, preciso ilustrar o local onde faço minhas atividades.
O parque tem uma pista em formato de taco de golfe. Uma reta grande, com uma bola na ponta. Começo sempre pela ponta. Corro primeiro a reta, completo a parte circular e volto ao começo passando pela reta até chegar ao ponto de largada.
Segundo a medição pista, essa volta tem dois quilômetros e meio. Dou pelo menos duas voltas e corro assim cinco kms.
Eu já estava perto de concluir a primeira volta quando vi duas meninas andando pela pista, vindo de frente a mim. Até aí, nada demais, é normal pessoas caminharem por lá. Quando estava há uns 20 metros delas tentei desviar, mas as meninas foram para o mesmo lado.
Pensei ser um mal entendido, e mudei de lado novamente. As duas deram as mãos e fecharam a pista de corrida. Olhei para trás, pensei que brincavam com algum amigo. Mas não havia ninguém.
Eu já estava muito perto, fui para a grama e desviei delas, que nessa hora já pulavam e tentavam me agarrar. Quando passei, ouvi uma das duas gritar:
- Pára, você é muito gostoso.
A outra falava coisas que, juro, não entendi.
Terminei a primeira volta e parti para a seguinte. Como elas andavam no sentido contrário ao meu, as encontrei no começo da parte circular da pista, bem no final da reta.
Elas perceberam minha chegada e tentaram me parar novamente. Começou a gritaria e uma delas implorou para que eu parasse.
- Para, por favor, pára, fala com a gente.
Desviei, mais uma vez pela grama. Mas elas não desistiram e começaram a correr atrás de mim. Tentando puxar-me pela camisa. Apertei o passo, pedi desculpas, disse que estava treinando e segui.
Corri ainda mais rápido, ouvindo gritos histéricos.
Mas ainda faltava completar a parte circular e elas se mantiveram onde estavam.
Peguei um atalho, foi pelo bosque e me livrei daquele ataque de fãs.
Me senti um ator, um cantor, um jogador de futebol. Nunca imaginei ter duas meninas tentando me agarrar em local publico em plena luz do dia.
Tive pena dos bonitos e famosos. Se eu feio e pobre tive esse assédio. Imagina o Tom Cruise............. o coitado deve sofrer.
O parque tem uma pista em formato de taco de golfe. Uma reta grande, com uma bola na ponta. Começo sempre pela ponta. Corro primeiro a reta, completo a parte circular e volto ao começo passando pela reta até chegar ao ponto de largada.
Segundo a medição pista, essa volta tem dois quilômetros e meio. Dou pelo menos duas voltas e corro assim cinco kms.
Eu já estava perto de concluir a primeira volta quando vi duas meninas andando pela pista, vindo de frente a mim. Até aí, nada demais, é normal pessoas caminharem por lá. Quando estava há uns 20 metros delas tentei desviar, mas as meninas foram para o mesmo lado.
Pensei ser um mal entendido, e mudei de lado novamente. As duas deram as mãos e fecharam a pista de corrida. Olhei para trás, pensei que brincavam com algum amigo. Mas não havia ninguém.
Eu já estava muito perto, fui para a grama e desviei delas, que nessa hora já pulavam e tentavam me agarrar. Quando passei, ouvi uma das duas gritar:
- Pára, você é muito gostoso.
A outra falava coisas que, juro, não entendi.
Terminei a primeira volta e parti para a seguinte. Como elas andavam no sentido contrário ao meu, as encontrei no começo da parte circular da pista, bem no final da reta.
Elas perceberam minha chegada e tentaram me parar novamente. Começou a gritaria e uma delas implorou para que eu parasse.
- Para, por favor, pára, fala com a gente.
Desviei, mais uma vez pela grama. Mas elas não desistiram e começaram a correr atrás de mim. Tentando puxar-me pela camisa. Apertei o passo, pedi desculpas, disse que estava treinando e segui.
Corri ainda mais rápido, ouvindo gritos histéricos.
Mas ainda faltava completar a parte circular e elas se mantiveram onde estavam.
Peguei um atalho, foi pelo bosque e me livrei daquele ataque de fãs.
Me senti um ator, um cantor, um jogador de futebol. Nunca imaginei ter duas meninas tentando me agarrar em local publico em plena luz do dia.
Tive pena dos bonitos e famosos. Se eu feio e pobre tive esse assédio. Imagina o Tom Cruise............. o coitado deve sofrer.
01 outubro 2007
Pensamentos quase póstumos
Abro meu espaço hj...
Pensamentos quase póstumos
LUCIANO HUCK
LUCIANO HUCK foi assassinado. Manchete do "Jornal Nacional" de ontem. E eu, algumas páginas à frente neste diário, provavelmente no caderno policial. E, quem sabe, uma homenagem póstuma no caderno de cultura.
Não veria meu segundo filho. Deixaria órfã uma inocente criança. Uma jovem viúva. Uma família destroçada. Uma multidão bastante triste. Um governador envergonhado. Um presidente em silêncio.
Por quê? Por causa de um relógio.
Como brasileiro, tenho até pena dos dois pobres coitados montados naquela moto com um par de capacetes velhos e um 38 bem carregado.
Provavelmente não tiveram infância e educação, muito menos oportunidades. O que não justifica ficar tentando matar as pessoas em plena luz do dia. O lugar deles é na cadeia.
Agora, como cidadão paulistano, fico revoltado. Juro que pago todos os meus impostos, uma fortuna. E, como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa.
Adoro São Paulo. É a minha cidade. Nasci aqui. As minhas raízes estão aqui. Defendo esta cidade. Mas a situação está ficando indefensável.
Passei um dia na cidade nesta semana -moro no Rio por motivos profissionais- e três assaltos passaram por mim. Meu irmão, uma funcionária e eu. Foi-se um relógio que acabara de ganhar da minha esposa em comemoração ao meu aniversário. Todos nos Jardins, com assaltantes armados, de motos e revólveres.
Onde está a polícia? Onde está a "Elite da Tropa"? Quem sabe até a "Tropa de Elite"! Chamem o comandante Nascimento! Está na hora de discutirmos segurança pública de verdade. Tenho certeza de que esse tipo de assalto ao transeunte, ao motorista, não leva mais do que 30 dias para ser extinto. Dois ladrões a bordo de uma moto, com uma coleção de relógios e pertences alheios na mochila e um par de armas de fogo não se teletransportam da rua Renato Paes de Barros para o infinito.
Passo o dia pensando em como deixar as pessoas mais felizes e como tentar fazer este país mais bacana. TV diverte e a ONG que presido tem um trabalho sério e eficiente em sua missão. Meu prazer passa pelo bem-estar coletivo, não tenho dúvidas disso.
Confesso que já andei de carro blindado, mas aboli. Por filosofia. Concluí que não era isso que queria para a minha cidade. Não queria assumir que estávamos vivendo em Bogotá. Errei na mosca. Bogotá melhorou muito. E nós? Bem, nós estamos chafurdados na violência urbana e não vejo perspectiva de sairmos do atoleiro.
Escrevo este texto não para colocar a revolta de alguém que perdeu o rolex, mas a indignação de alguém que de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo e concluir -com um 38 na testa- que o país está em diversas frentes caminhando nessa direção, mas, de outro lado, continua mergulhado em problemas quase "infantis" para uma sociedade moderna e justa.
De um lado, a pujança do Brasil. Mas, do outro, crianças sendo assassinadas a golpes de estilete na periferia, assaltos a mão armada sendo executados em série nos bairros ricos, corruptos notórios e comprovados mantendo-se no governo. Nem Bogotá é mais aqui.
Onde estão os projetos? Onde estão as políticas públicas de segurança? Onde está a polícia? Quem compra as centenas de relógios roubados? Onde vende? Não acredito que a polícia não saiba. Finge não saber.
Alguém consegue explicar um assassino condenado que passa final de semana em casa!? Qual é a lógica disso? Ou um par de "extraterrestres" fortemente armado desfilando pelos bairros nobres de São Paulo?
Estou à procura de um salvador da pátria. Pensei que poderia ser o Mano Brown, mas, no "Roda Vida" da última segunda-feira, descobri que ele não é nem quer ser o tal. Pensei no comandante Nascimento, mas descobri que, na verdade, "Tropa de Elite" é uma obra de ficção e que aquele na tela é o Wagner Moura, o Olavo da novela. Pensei no presidente, mas não sei no que ele está pensando.
Enfim, pensei, pensei, pensei. Enquanto isso, João Dória Jr. grita: "Cansei". O Lobão canta: "Peidei".
Pensando, cansado ou peidando, hoje posso dizer que sou parte das estatísticas da violência em São Paulo. E, se você ainda não tem um assalto para chamar de seu, não se preocupe: a sua hora vai chegar.
Desculpem o desabafo, mas, hoje amanheci um cidadão envergonhado de ser paulistano, um brasileiro humilhado por um calibre 38 e um homem que correu o risco de não ver os seus filhos crescerem por causa de um relógio.
Isso não está certo.
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LUCIANO HUCK, 36, apresentador de TV, comanda o programa "Caldeirão do Huck", na TV Globo. É diretor-presidente do Instituto Criar de TV, Cinema e Novas Mídias.
Pensamentos quase póstumos
LUCIANO HUCK
LUCIANO HUCK foi assassinado. Manchete do "Jornal Nacional" de ontem. E eu, algumas páginas à frente neste diário, provavelmente no caderno policial. E, quem sabe, uma homenagem póstuma no caderno de cultura.
Não veria meu segundo filho. Deixaria órfã uma inocente criança. Uma jovem viúva. Uma família destroçada. Uma multidão bastante triste. Um governador envergonhado. Um presidente em silêncio.
Por quê? Por causa de um relógio.
Como brasileiro, tenho até pena dos dois pobres coitados montados naquela moto com um par de capacetes velhos e um 38 bem carregado.
Provavelmente não tiveram infância e educação, muito menos oportunidades. O que não justifica ficar tentando matar as pessoas em plena luz do dia. O lugar deles é na cadeia.
Agora, como cidadão paulistano, fico revoltado. Juro que pago todos os meus impostos, uma fortuna. E, como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa.
Adoro São Paulo. É a minha cidade. Nasci aqui. As minhas raízes estão aqui. Defendo esta cidade. Mas a situação está ficando indefensável.
Passei um dia na cidade nesta semana -moro no Rio por motivos profissionais- e três assaltos passaram por mim. Meu irmão, uma funcionária e eu. Foi-se um relógio que acabara de ganhar da minha esposa em comemoração ao meu aniversário. Todos nos Jardins, com assaltantes armados, de motos e revólveres.
Onde está a polícia? Onde está a "Elite da Tropa"? Quem sabe até a "Tropa de Elite"! Chamem o comandante Nascimento! Está na hora de discutirmos segurança pública de verdade. Tenho certeza de que esse tipo de assalto ao transeunte, ao motorista, não leva mais do que 30 dias para ser extinto. Dois ladrões a bordo de uma moto, com uma coleção de relógios e pertences alheios na mochila e um par de armas de fogo não se teletransportam da rua Renato Paes de Barros para o infinito.
Passo o dia pensando em como deixar as pessoas mais felizes e como tentar fazer este país mais bacana. TV diverte e a ONG que presido tem um trabalho sério e eficiente em sua missão. Meu prazer passa pelo bem-estar coletivo, não tenho dúvidas disso.
Confesso que já andei de carro blindado, mas aboli. Por filosofia. Concluí que não era isso que queria para a minha cidade. Não queria assumir que estávamos vivendo em Bogotá. Errei na mosca. Bogotá melhorou muito. E nós? Bem, nós estamos chafurdados na violência urbana e não vejo perspectiva de sairmos do atoleiro.
Escrevo este texto não para colocar a revolta de alguém que perdeu o rolex, mas a indignação de alguém que de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo e concluir -com um 38 na testa- que o país está em diversas frentes caminhando nessa direção, mas, de outro lado, continua mergulhado em problemas quase "infantis" para uma sociedade moderna e justa.
De um lado, a pujança do Brasil. Mas, do outro, crianças sendo assassinadas a golpes de estilete na periferia, assaltos a mão armada sendo executados em série nos bairros ricos, corruptos notórios e comprovados mantendo-se no governo. Nem Bogotá é mais aqui.
Onde estão os projetos? Onde estão as políticas públicas de segurança? Onde está a polícia? Quem compra as centenas de relógios roubados? Onde vende? Não acredito que a polícia não saiba. Finge não saber.
Alguém consegue explicar um assassino condenado que passa final de semana em casa!? Qual é a lógica disso? Ou um par de "extraterrestres" fortemente armado desfilando pelos bairros nobres de São Paulo?
Estou à procura de um salvador da pátria. Pensei que poderia ser o Mano Brown, mas, no "Roda Vida" da última segunda-feira, descobri que ele não é nem quer ser o tal. Pensei no comandante Nascimento, mas descobri que, na verdade, "Tropa de Elite" é uma obra de ficção e que aquele na tela é o Wagner Moura, o Olavo da novela. Pensei no presidente, mas não sei no que ele está pensando.
Enfim, pensei, pensei, pensei. Enquanto isso, João Dória Jr. grita: "Cansei". O Lobão canta: "Peidei".
Pensando, cansado ou peidando, hoje posso dizer que sou parte das estatísticas da violência em São Paulo. E, se você ainda não tem um assalto para chamar de seu, não se preocupe: a sua hora vai chegar.
Desculpem o desabafo, mas, hoje amanheci um cidadão envergonhado de ser paulistano, um brasileiro humilhado por um calibre 38 e um homem que correu o risco de não ver os seus filhos crescerem por causa de um relógio.
Isso não está certo.
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LUCIANO HUCK, 36, apresentador de TV, comanda o programa "Caldeirão do Huck", na TV Globo. É diretor-presidente do Instituto Criar de TV, Cinema e Novas Mídias.
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